É preciso aumentar a conscientização sobre esse assunto tão pertinente e, ainda sim, pouco debatido

O vírus da imunodeficiência humana (HIV, sigla em inglês) ataca, danifica e enfraquece o sistema imunológico. Esse patógeno pode entrar no corpo humano por meio de relações sexuais desprotegidas, compartilhamento de seringas e transfusões com sangue contaminado, bem como da mãe para o bebê durante a gravidez, o parto e/ou a amamentação. Com base nisso e na falta de tratamento para o HIV, é possível que várias infecções “oportunistas” afetem o corpo, abrindo espaço para o desenvolvimento da síndrome da imunodeficiência adquirida (Aids, sigla em inglês), isto é, uma condição potencialmente fatal composta por várias doenças oportunistas.

“Recentemente celebramos o Dia Mundial de Luta contra a Aids, que é um marco da medicina, pois estamos falando de uma doença que, há mais 30 anos, tinha um índice de óbito de mais de 90%. Portanto, essa data deve ser valorizada, no sentido de comemorar todas as conquistas referentes ao tema, uma vez que a Aids foi abordada e estudada ao longo dos últimos anos e, por isso, hoje já não oferece os riscos de mortalidade de antigamente. Mas, claro, a data também serve de alerta para entendermos que muito ainda precisa ser feito, sobretudo com relação à população mais carente”, observa o Dr. Evandro Oliveira, ginecologista e diretor médico da Maternidade Brasília.

Hoje daremos mais detalhes do que é ser uma futura mamãe soropositiva.

Afinal, como o HIV passa da mãe para o bebê?

Em 1985, foi registrado, em boletim médico, o primeiro caso de transmissão vertical, isto é, quando uma contaminação é passada da mãe para o bebê que está por vir, a principal forma de infecção pelo HIV na população infantil. A passagem do vírus em questão pode ocorrer tanto pela placenta quanto durante o parto em si, por exposição a secreções, sangue materno ou mesmo ao leite materno. Por isso, é extremamente importante fazer o teste de HIV antes ou durante a gravidez, uma vez que, diante de um diagnóstico positivo, a equipe médica pode implementar medidas específicas de profilaxia para prevenir ou limitar a transmissão do patógeno nesse momento especial.

Vale ressaltar que, durante a gravidez, os anticorpos da gestante passam naturalmente para o bebê. Portanto, mesmo na ausência de infecção, a criança pode vir a testar positivo para o HIV em seus primeiros 18 meses e se tornar negativo posteriormente.

Métodos para prevenir esse tipo de transmissão

O Dr. Felipe Teixeira de Mello Freitas, infectologista da Maternidade Brasília, explica que quatro pontos compõem a base da prevenção da transmissão do HIV para o feto e o recém-nascido.

Primeiramente, mulheres que já receberam o diagnóstico da doença devem administrar os medicamentos antirretrovirais (ARV) todos os dias, exatamente como prescrito pelo médico, para suprimir a carga viral no organismo e evitar o enfraquecimento do sistema imunológico. Esses fármacos ajudam as pessoas que convivem com o HIV a viverem por mais tempo, com mais qualidade de vida e mais saúde.

A respeito do tipo de parto a ser escolhido pela gestante, o médico ressalta que é indicada a realização de uma cesariana eletiva, pois os riscos de transmissão do vírus pelas secreções e sangue no canal de parto, no parto normal, seriam muito maiores. “Durante esse momento, também é importante administrar, de forma venosa, o medicamento AZT (zidovudina)”, complementa o especialista.

Após o nascimento, os bebês nascidos de mães com HIV também receberão imediatamente a terapia com uso de antirretrovirais (Tarv). Esse cuidado precisa ser mantido durante quatro semanas, pois protegerá o pequeno da infecção de qualquer tipo de HIV transmitido de sua mãe durante o parto.

Além disso, como já comentamos, o leite materno também pode conter o vírus em questão. Por isso, uma maneira de prevenir a transmissão vertical é pelo uso de fórmulas infantis, ou seja, a mãe não deve amamentar o bebê.

Ou seja, com o conhecimento prévio dessa condição e o auxílio de uma equipe médica bem preparada e atenta às necessidades da futura mamãe e de seu neném, as chances de transmissão vertical pelo HIV podem ser significativamente diminuídas.

Não podemos deixar de destacar

Se você apenas leu esta matéria por curiosidade, por não ser uma pessoa soropositiva, aproveite o embalo para relembrar os três principais métodos de prevenção para se manter longe do HIV e, consequentemente, da Aids:

– o preservativo é a forma mais eficaz de proteção contra o HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis – tanto a camisinha masculina quanto a feminina cumprem corretamente o papel de impedir a infecção dessas doenças;

– nunca compartilhe agulhas, seringas, equipamentos de injeção, alicates e material perfurocortante com outras pessoas, independentemente do contexto – se for fazer uma tatuagem ou um piercing, certifique-se de que uma agulha limpa e esterilizada esteja sendo usada;

– você pode tomar um medicamento de profilaxia de pré-exposição (PrEP) para reduzir o risco de contrair o vírus, caso seja uma pessoa com alto risco de infecção pelo HIV, por exemplo, se seu parceiro ou parceira for HIV positivo: “Vale ressaltar que, hoje em dia, sabemos que um paciente que adere totalmente ao tratamento e, consequentemente, apresenta carga viral indetectável pode conviver de forma tranquila com um parceiro ou parceira que não tenha o HIV sem que haja riscos de transmissão para ele ou ela ou para um bebê diante de uma gravidez”, salienta o infectologista da Maternidade Brasília.

Curiosidade: como é o tratamento do HIV nos dias atuais?

A abordagem terapêutica para a infecção por HIV evoluiu de forma revolucionária nos últimos 25 anos. Em 1996, quando essa possibilidade surgiu, o tratamento ainda envolvia alguns fatores que tornavam difícil a aderência a ele: uma quantidade muito grande de comprimidos por dia, vários efeitos colaterais indesejáveis e a interação com outros medicamentos que também estariam em uso pelo paciente. Felizmente, na última década, os avanços da medicina permitiram a criação de fármacos mais potentes, que demandam menos quantidade de comprimidos (muitas vezes apenas um por dia), com menos efeitos adversos e uma capacidade de redução da carga viral muito rápida. Uma verdadeira revolução, que proporciona a manutenção de uma vida absolutamente normal, como a de uma pessoa não infectada”, destaca o Dr. Felipe Teixeira de Mello.

A base do tratamento atual é composta por três medicamentos antirretrovirais utilizados para suprimir a carga viral do HIV, o que deixa a pessoa com a concentração do patógeno indetectável para esse quadro, de forma que a replicação viral é controlada e o desenvolvimento da Aids, impedido.

“A Maternidade Brasília segue o protocolo do Ministério da Saúde para as gestantes que são sorotipo positivo. Dessa forma, todo o acompanhamento do pré-natal, do parto e do pós-parto tem critérios que visam a dois fatores importantes: primeiro, a proteção materna contra qualquer tipo de preconceito social que poderia acontecer durante a realização desses processos, pois sabemos que, infelizmente, isso ainda existe; o segundo ponto é referente à proteção fetal, ou seja, seguimos todos os critérios medicamentosos e as condutas para o momento do parto sugeridas pelo Ministério da Saúde, de maneira a evitar o risco de transmissão vertical. Isso deixa a gente dentro do que se tem de mais atual e apropriado para o acompanhamento e a resolubilidade desse tipo de parto”, finaliza o Dr. Evandro Oliveira.

Fonte: Dr. Evandro Oliveira, ginecologista e diretor médico da Maternidade Brasília e Dr. Felipe Teixeira de Mello Freitas, infectologista da Maternidade Brasília.